Extensão Universitária e Saúde da População Negra: entraves da branquitude
DOI:
https://doi.org/10.23901/1679-4605.2022v18n1p207-226Palavras-chave:
saúde, população negra, branquitude, racismo, extensãoResumo
A extensão universitária tem ampliado seu foco de atuação para o campo das relações raciais a partir das ações afirmativas. As iniqüidades raciais na saúde da população negra passam a ocupar papel importante nas políticas públicas em virtude das lutas e conquistas dos movimentos negros. Fruto desses esforços, e, em consonância com a Constituição Federal e o Sistema Único de Saúde, em 2009 foi promulgada a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Contudo, a força do racismo que estrutura a organização da sociedade brasileira, segue produzindo impactos nas instituições, em especial nas universidades. No campo da saúde da população negra os desafios para sua consolidação nas práticas de ensino, pesquisa e extensão são muitos. Assim, este trabalho apresenta uma reflexão teórico-prática a partir das ações de extensão do projeto Saúde da População Negra e a Integração com os Serviços de Saúde, da Universidade Federal do Rio Grande Sul, no período de 2020-2021. O objetivo deste trabalho é discutir os entraves que o debate racial encontra por parte de docentes da saúde, também no campo da extensão universitária, sendo a branquitude um processo importante a ser analisado. Os referenciais teórico-metodológicos embasam-se na Psicologia Social, na Análise Institucional e nos Estudos das Relações Raciais. Propõe-se como analisador o relato de experiência de bolsistas do referido Projeto em evento nacional de extensão universitária, durante a pandemia do Covid-19, em 2021. A cena analisada foi uma roda de conversas para apresentação de trabalhos de extensão em um congresso nacional, realizado de forma virtual. Estavam presentes na sala uma professora-mediadora e os/as apresentadores/as de trabalhos. A maioria das pessoas presentes na sala era branca. A presença em espaços acadêmicos majoritariamente brancos é uma realidade vivida por estudantes negras(os) que produz um desconforto naturalizado, pois são forçados a se acostumarem com essa falta de representatividade na universidade. O debate analisado ocorreu entre a professora branca, as cinco apresentadoras (quatro negras e uma branca) e um estudante branco. A metodologia utilizada foi o registro em diários de campo para a posterior produção de análise crítica. Para explicitação dos marcadores sociais da diferença que produzem subjetivação e iniquidades raciais nas experiências de vida, utilizou-se o formato das escrevivências. Os resultados encontrados apontam a permanência de discursos acadêmicos que não reconhecem o racismo como uma determinação social em saúde, amparados pelo mito da democracia racial e da primazia de enunciados biomédicos. Além disso, explicitou-se a manifestação dos privilégios da branquitude em compactuar com o silenciamento de pessoas negras. Importante salientar que esta análise qualitativa se embasa na compreensão de que o posicionamento individual está inscrito na trama das relações sociais e institucionais. As falas individuais estão carregadas de relações de saber-poder, as quais foram possibilitadas pela produção de subjetividade que é sempre coletiva. Assim, tomamos essa situação-análise como representativa do que vivenciamos nas relações universitárias e da extensão. Apostamos na necessidade desta reflexão crítica e antirracista para contribuir com os estudos que se debruçam sobre os efeitos nefastos do racismo na vida de estudantes negras e negros.Downloads
Publicado
2025-07-01
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Artigos
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